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INDICANG : um projecto para sintetizar
os nossos conhecimentos sobre a enguia e sobre a qualidade dos seus habitats
através do estabelecimento de uma rede de operações regionais de monitorização à
escala europeia.
O
objectivo deste projecto é o estabelecimento de uma rede de indicadores de
abundância e de colonização da enguia europeia na zona central da sua
área de distribuição. Este projecto teve o seu início em Maio
de 2004 e tem uma duração de 3 anos.
Contexto :
Este projecto é apoiado por 7 regiões do Arco Atlântico: Norte
de Portugal, Província das Astúrias, País Basco espanhol, Aquitânea,
Poitou-Charentes, País de Loire e Cornualha Inglesa. Não é um projecto de
investigação mas de valorização de saberes e de transferência de conhecimentos
entre os vários protagonistas. Nestas 7 regiões, será dada enfâse a 13 bacias
hidrográficas (ver mapa).
A
escolha destas bacias hidrográficas está relacionada com a localização de
equipas científicas e de estruturas técnicas que já trabalham sobre a pesca
estuarina e a biologia desta espécie. Também já existem colaborações entre os
utilizadores deste recurso, as estruturas responsáveis pela sua gestão e os
parceiros técnicos do INDICANG. Este projecto propôe-se agrupar estas equipas e
estabelecer uma rede que facilite a comunicação não só entre os parceiros
técnicos e científicos mas também com os outros protagonistas da sua gestão (utilizadores,
administrações e Entidades Públicas).
Porquê a enguia?
Espécie importante para as economias das regiões do Arco
Atlântico
A enguia europeia (Anguilla anguilla) é um peixe
anfihalino, que vive alternadamente na água doce e no mar, e que se reproduz no
mar (Mar dos Sargaços). A exploração desta espécie é um dos componentes
principais da pesca costeira do sul da Europa. A enguia, na sua fase de meixão,
constitui a terceira espécie economicamente mais importante na zona costeira
desde o Loire até ao sul de Portugal (15,6 M em valor
declarado), a seguir à solha e ao polvo e acima da pescada. Estima-se que só no
litoral francês, o valor desta espécie no estado juvenil (meixão) representou 33
M em 1999. Ainda no espaço europeu, aproximadamente 25000 pessoas obtêm
rendimentos resultantes da pesca da enguia. A sua importância económica é
portanto elevada e como tal tem um forte impacto social nas pescarias costeiras
de pequena escala, estuarinas e de águas interiores. È de referir ainda que
estas actividades haliêuticas têm um forte efeito estruturante nas
economias regionais.
Um bioindicador da qualidade do nosso ambiente

A
enguia passa a maior parte do seu ciclo biológico em águas continentais. Ao
permanecer nestas águas durante períodos que podem ir dos 3 aos 20 anos (variando
segundo o sexo e os locais), torna-se um bom indicador da qualidade dos sistemas
aquáticos onde vive: lagoas, rios, ribeiros, pântanos, pauis, etc. Para além
disso, como está sempre em contacto com os sedimentos, torna-se susceptível de
acumular diversos poluentes (metais pesados, pesticidas) o que, com os métodos
analíticos actuais, permite estudar esta contaminação e os seus impactos. A sua
dispersão nas bacias hidrográficas é também reflexo da fragmentação dos habitats
aquáticos. A existência de barragens, frequentemente muito próximas da foz dos
rios, constitui também um obstáculo à colonização das águas interiores.
Adicionalmente, esta espécie colonizou zonas húmidas que estão actualmente a
desaparecer. Assim, a sua sobrevivência, manutenção e dispersão nesses habitats
potencialmente colonizáveis constitui não só um objectivo social e económico mas
também ambiental a uma escala regional e europeia.
Espécie de interesse patrimonial em perigo
O estatuto desta espécie foi definido pelo Conselho
Internacional para a Exploração do Mar (CIEM). Os cientistas do grupo enguia
criada no seio dessa estrutura demonstraram que a população de enguia europeia
encontra-se abaixo dos limites biológicos de segurança, com situações bastante
críticas principalmente no norte da sua área de distribuição (rios que desaguam
no Mar do Norte, no mar da Noruega e no mar Báltico). Face a este cenário, o
Comité Consultivo para a Gestão das Pescas do CIEM propôs um plano de
recuperação que se baseia na redução da exploração da enguia no conjunto das
suas fases do ciclo biológico (meixão, enguia amarela e prateada) e que inclui
também um plano de restauração de habitats. O presente projecto constitui assim
uma resposta concreta à Comunicação de Comissão ao Conselho e ao Parlamento
Europeu: Elaboração de um plano de acção comunitário para a gestão da enguia
europeia COM (2003) 573 de 01.10.2003 final.
O princípio do projecto
A gestão desta espécie só pode ser feita de forma credível e
eficaz à escala de bacia hidrográfica. Esta escala permite optimizar a
exploração desta espécie, pois limita os constrangimentos provocados por
variados factores antrópicos. No entanto, é necessário incluir também os
utilizadores deste recurso na sua gestão, integrando as informações e dados por
eles fornecidos e permitindo-lhes comparar os resultados das monitorizações
científicas e técnicas com indicadores de exploração dos quais têm toda a
responsabilidade (capturas totais, esforço de pesca, capturas por unidade de
esforço, variações climáticas, ...). O utilizador torna-se assim um interessado
directo na protecção do recurso e do ambiente, possibilitando ao mesmo tempo a
obtenção de uma análise sistemática. Porém, é importante destacar que a pesca
não é o único factor que afecta a exploração deste recurso; existem outros
igualmente importantes, como sejam a exploração dos recursos hídricos, a
alteração das paisagens urbanas e agrícolas, etc..
Contudo, a restauração dos habitats e deste recurso numa só
bacia hidrográfica não irá resultar na recuperação desta espécie à escala
europeia. Isto porque à zona de reprodução situada no mar dos Sargassos afluem
os reprodutores de todos os rios da sua área de distribuição. O estabelecimento
de uma rede de bacias-piloto permite uma metodologia precisa e local em cada
bacia hidrográfica e, no seu conjunto, abranger uma área muito grande, credível
e eficaz à escala europeia e, obviamente, à escala do Espaço Atlântico. A
nossa rede propôe-se incluir esta dimensão local nas bacias hidrográficas de
maior dimensão da região compreendida entre a Cornualha Inglesa e o Norte de
Portugal.
Assim, a criação ao nível de cada bacia hidrográfica de uma
estrutura de animação permite assegurar de modo concreto a transferência de
conhecimentos (ascendente e descendente) entre os diferentes actores da gestão.
Esta estrutura está vocacionada para a resolução não só dos problemas biológicos
mas também das questões socio-económicas. Com efeito, a experiência mostra que a
gestão deste recurso só é eficaz com compromissos assumidos entre os diversos
protagonistas, compromissos esses que deverão ser baseados em factos de natureza
biológica e também social.
Esta estrutura de animação será responsável pela locação de
meios técnicos para a monitorização e obtenção de indicadores. Estes deverão ser
validados através de normas precisas para poderem ser comparados entre as várias
bacias hidrográficas pertencentes à rede. Tudo isto é apoiado cientificamente
pela rede de Grupos Temáticos que são da responsabilidade directa dos
organismos de investigação, mas em ligação com as estruturas técnicas regionais.
Estes grupos temáticos são especializados: indicadores de recrutamento (meixão);
indicadores de colonização (enguia amarela); indicadores de fuga (enguia
prateada) e indicadores do meio ambiente. Têm como objectivos fazer o ponto
da situação inicial ao nível da monitorização já existente em cada bacia
hidrográfica, analisar os métodos utilizados e propôr as bases técnicas comuns a
serem utilizadas em todas as bacias hidrográficas da rede.
O conjunto de dados recolhidos sobre as pescarias, a avaliação
deste recurso e a qualidade dos habitats será colectivamente analisado e
sintetizado. Por fim, esta útil ferramenta estará à disposição dos gestores e
decisores regionais, nacionais e europeus para ser usada para uma administração
mais consciensiosa deste recurso e do ambiente.
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